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    <title>mennaempalavras on Tuhat</title>
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    <description>Posts by mennaempalavras on Tuhat</description>
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      <title>CONTÍCULO DE UM MILAGRE</title>
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      <description>Uma banda de rock. Um vocalista que esqueceu a fé. Uma redenção.</description>
      <dc:creator>mennaempalavras</dc:creator>
      <content:encoded><![CDATA[<p>CONTÍCULO DE UM MILAGRE</p><p><picture><source srcset="/images/u/mennaempalavras/33002917-ab09-4a1c-9255-0a2c552d0e8b.avif" type="image/avif"><img src="/images/u/mennaempalavras/33002917-ab09-4a1c-9255-0a2c552d0e8b.webp"></picture></p><p>	Antes da fama, ele tinha fé. Por algum motivo que ele não soube explicar, lembrara-se disso olhando o desenho de uma lágrima em chamas tatuada na mão, enquanto o avião que levava a banda de rock do momento, da qual ele era o vocalista, voava por entre pesadas nuvens em direção à Capital do Estado do Pará, onde em poucas horas, fariam um show e em seguida rumariam a um festival de Rock na 7ª cidade mais competitiva economicamente, da América Latina: Cidade do Panamá.</p><p>	De repente, não muito longe de Belém, o aviso luminoso de apertar o cinto acendeu e a voz do piloto avisou que enfrentariam uma área de turbulência. Mal deu tempo de o piloto terminar o aviso, o copo de uísque caiu no carpete do jato executivo que há meses era o local onde a banda passava mais tempo. Ele já havia enfrentado turbulências antes, mas aquela, somada às lembranças que rememorara, deixaram-no particularmente apreensivo. Num gesto instintivo, levou a mão ao pescoço, onde durante quase toda a vida usara um escapulário, que fora descartado por recomendação do produtor e da diretora de imagem da banda. Com o coração acelerado, o efeito da última carreira cheirada passando e algum álcool na cabeça, tentou lembrar de alguma das orações da infância e não conseguiu. Então, talvez agarrado às lembranças que estava tendo da infância vivida sob a fé ensinada pelos pais, reforçada na escola de freiras, e na amizade com os Padres da Igreja próxima da casa de sua infância, ele fez uma promessa!</p><p>	Algum tempo depois, naquele mesmo dia, na Igreja da esquina das avenidas Castelo Branco e Conselheiro Furtado em Belém, a equipe responsável pelas músicas da missa estava, já, reunida no mezanino, acima da entrada cujo único acesso é por meio de uma escada em espiral, que permanece fechada, para que ninguém não autorizado suba. Naquela igreja, a equipe da música não fica aos olhos dos fiéis e, nos momentos de cantar, apenas o som dos instrumentos e vozes dos cantores espalham-se em toda a nave da Igreja.</p><p>	Pois a equipe, composta de um frade capuchinho que cantava, um leigo de aproximadamente 50 anos que tocava violão e sua filha de 20 anos que tocava um teclado eletrônico, fora surpreendida com um rapaz de capuz, que pedira para cantar as músicas da missa. Enquanto o leigo ficara em silêncio com um ar de interrogação no semblante, o frade cantor aproximou-se para explicar que não era permitido subir ao local… mas fora interrompido pela tecladista, que, de olhos vibrantes, pegara no braço do frade e falara-lhe, com alguma empolgação, ao seu ouvido, pedindo que lhe deixasse cantar, e explicando quem seria o rapaz de capuz. Até mesmo o frade já ouvira falar em seu nome. </p><p>	— Podem ser estas músicas? — perguntou o rapaz, entregando à equipe um pedaço de papel com uma lista de músicas antigas, mas ainda conhecidas. O frade mostrou-as à equipe e todos concordaram, embora não desse mais sequer tempo de falar com o Padre celebrante para avisa-lo da mudança das músicas.</p><p>	A igreja não estava lotada naquela sexta-feira à noite, chuvosa. Havia muitos bancos vazios. Assim que começaram os primeiros acordes, e iniciou-se a marcha de entrada do séquito seguindo a Cruz levada com devoção pelo primeiro dos cinco coroinhas, o Padre estranhou por não ser a música que lhe fora informada, mas reconheceu-a, embora há muito não mais a ouvisse. Assim que entrou o vocal, quase todos na Igreja repararam. Era diferente. Vibrante. Foi difícil ouvir sem a pele arrepiar, tamanha força e emoção que transbordavam na voz. Alguns mais jovens quase levaram um susto. Poderiam jurar que a voz era a do vocalista daquela banda famosa que nesta noite faria show no Hangar, em Belém: "... Eternidade é na verdade / o amor vivendo sempre em nós.."</p><p>	Feita a saudação inicial, a benção, e a primeira oração respondida, veio o canto penitencial. Ali, muitos já tinham a certeza de que conheciam aquela voz. E que interpretação! As pessoas na missa pareciam poder sentir lágrimas nos olhos do cantor ao entoar os versos "... embora eu me afastasse / e andasse desligado / meu coração cansado / resolveu voltar”.</p><p>	Naquele momento, contra todas as recomendações, várias cabeças voltavam-se para trás e tentavam olhar o mezanino, embora não fosse possível enxergar quem quer que fosse. </p><p>	No canto de glória, a voz por vezes propositadamente grave, porém suave, inundou a Igreja, e, para desaprovação do Padre celebrante, muitos dos mais jovens sacaram seus celulares e, então, começou uma enxurrada de mensagens de texto e, até mesmo, áudios dos que haviam gravado o final do canto de glória. Só podia ser ele! Muitos dos fiéis eram fãs da banda, não poderiam estar enganados acerca daquela voz! Em poucas horas, a banda tocaria no Hangar! Talvez fosse algo promocional. Era incrível e inacreditável, mas tinha de ser ele, o vocalista de rock mais celebrado do momento! E bem ali, cantando na missa!</p><p>	Já durante o canto de ofertório, a Igreja começou a ficar lotada. Não havia mais nenhum lugar nos bancos e os espaços laterais começavam a ser preenchidos por pessoas em pé, na maioria jovens. O frade cantor teve de descer de modo a evitar que qualquer pessoa vencesse a tentação de subir pela escada em espiral, e postou-se no no primeiro degrau da escada, impedindo qualquer acesso, e recomendando silêncio. Mas decidiu que iria fazer uma selfie com o rapaz e pedir que gravasse um “oi" para a irmã adolescente que não seguira os mesmos passos religiosos que ele.</p><p>	</p><p>	Quando da procissão da comunhão, já era difícil até mesmo entrar na nave da Igreja. Nem sentados, nem em pé, nos amplos espaços laterais, cabia mais alguém. Jamais a Igreja estivera cheia assim. As redes sociais em minutos ficaram inundadas pelos áudios das canções na missa, por imagens do mezanino, sem, contudo, que se pudesse ver o rapaz de capuz que cantava segurando o microfone com as duas mãos, exibindo a mão tatuada com uma lágrima em chamas.</p><p>	Terminada a procissão da comunhão que, pela quantidade de gente, levara quase quatro vezes o tempo normal, antes que o Padre celebrante levantasse para a benção final, o rapaz começou, à capela, uma canção. E quase todos foram às lágrimas, tamanha dor que a voz transmitia ao cantar os versos finais: “… e, se jamais acreditei / perdoa-me Senhor / Pois hoje eu te encontrei”.</p><p>	A Igreja inteira, ficou em transe. Poucos olhavam para o altar, a quase totalidade das cabeças voltadas ao mezanino. Os dois músicos, pai e filha foram até o muro do mezanino e foram recebidos por uma avalanche de cliques de fotos e vídeos de celulares e gritos de fãs que esperavam a aparição do rapaz. O Padre celebrante conformou-se em proferir a benção final para um mínimo de pessoas que prestavam atenção, embora jamais a Igreja tenha estado tão cheia. O frade tinha imensa dificuldade de conter os jovens que se empurravam tentando subir. Havia confusão. </p><p>	Quando o frade foi finalmente vencido, quase arrancado dos degraus, e os primeiros fãs alcançaram o mezanino, houve decepção. Havia ali, apenas os dois músicos, pai e filha. Estiveram olhando a agitação na nave e, quando se viraram os primeiros fãs da banda já estavam chegando no mezanino. Perguntaram por ele! Onde estava? Todos queriam fotos e vídeos com o astro do Rock.</p><p>	Não estava lá. Os dois músicos ficaram com uma profunda interrogação! Teria ele saído enquanto estavam olhando a nave? Mas por onde? Ninguém soube responder. Somente depois de muito tempo, os fãs convenceram-se de que ele não estava mais lá. Restava, então, correr ao Hangar para ver o show, cujos ingressos já se haviam há meses esgotado.</p><p>	Naquela noite, horas mais tarde, uma multidão gritava impaciente no Hangar, frente ao palco vazio, apenas com os instrumentos da banda, aguardando a entrada que era sempre espetacular. O atraso passava do comum para tais eventos.</p><p>	Até que um homem subiu ao palco, com um semblante tenso. Ao mesmo tempo, os noticiários espalhavam no mundo a mesma notícia:</p><p>	“É com profundo pesar que informamos a queda do jato comercial que trazia a banda para Belém. O piloto conseguiu um pouso forçado em uma fazenda, salvando quase todos os passageiros e tripulantes que tiveram apenas ferimentos leves. Infelizmente, houve uma morte: a do vocalista.”</p><p>	</p><p>	Por Luís Augusto Menna Barreto</p><p>	20 de maio de 2018</p><p><br /></p>]]></content:encoded>
      <pubDate>Wed, 10 Jun 2026 00:57:33 +0000</pubDate>
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